sábado, agosto 23, 2008

Outono

Outono do amor 
outono de aves 
e de vozes caladas 
e de folhas molhadas 
de temor e surdo pranto 
(Camões)



Eucalyptus Leaves - Photo (c) Alma Lavenson


Quando a folha cair já não estarei por perto, de modo que podes dizer a toda gente que te deixei sem olhar para trás e sem razão aparente. 
Há em mim um cansaço de tudo o que não seja claro, como as razões porque não se escolhe o ser amado. Há em mim um sinal de fraqueza pelo fracasso constante de ser dois. Há em mim uma espécie de hábito (ou vício?) decalcado em cada traço dos nós que desfaço. Sei de antemão, e é por saber que não me atrevo a pedir perdão. De certa forma acho que tu sempre soubeste, mas isso nada mudaria, pois não? O ritual estava em marcha entre a caça e o caçador, e hoje foi o dia da caça. Passos demasiado rápidos nesse tango descompassado, e tudo volta ao mesmo: tu e eu, eu e tu. Nunca nós. Chego a pensar que o que amas em mim é apenas uma ideia, tão bela como a paisagem lunar vista de longe, tão árida e destituída de luz própria quando nela pousas. Dimensões interplanetárias nos separam e eu aqui tão perto (ainda…). Olha para mim como eu sou: far-te-á bem compreender que as razões, mesmo quando explicadas, são o que menos importa.


9 comentários:

Milesaway disse...

Quando a folha caír, espero que estejas bem.

paradoxamente líquida disse...

... falo por mim e pelo que vivo - por quem mais? (e agradeço de antemão a companhia na minha caminhada de reflexão e terei de repetir o perdão pela intromissão, para além da educação) mas...(causas não sei, terá que ser mais que literatura, muito mais)
há sempre o eu, o tu e o nós. mi vida, tu vida e nuestra vida
somos todos diferentes há milhares de anos, obras únicas
um beijo
ana

isabel mendes ferreira disse...

"as razões, mesmo quando explicadas, são o que menos importa."

_________________assertivo.




beijo Luz....outonal...que é quase sempre doce.

.

Presença disse...

As folhas não caiem... não podem cair... esta árvore é de folhas perenes... acreditas?
.
.
.
Outonal no meio dia da vida!
O que importa afinal? Sentir sim... longe de palavras...
.
.
Decisões feitas... acompanho!

bjo doce

Bea disse...

Quanto mais leio, mais cruel acho o que escreveste...triste, imensamente triste, também!
Não só para "ela" como em relação a ti. Cruel e triste. Ambas. Acentuado pela música. És fogo, Luz!

Ana Paula disse...

Não há amor que não se revista de cores outonais. Mas o cair da folha traz sempre em si renovação... :)

Um beijinho e um bom domingo!

Luz del Fuego disse...

Miles, eu sei que esperas.. I let you know, any way.

Ana, é bem mais que literatura, acredita. E não será a literatura o reflexo destas obras únicas?..

Isabel, o Outono aproxima-se a passos largos. Pressinto-o doce...

Presença, acredito firmemente. Ou já cá não estava...

Bea, o amor é tantas vezes triste e muito mais vezes cruel. Quem não lhe provou os dois lados, nunca amou de verdade.

Ana Paula, ainda estou a desbastar a relva mas, como disse à Isabel, pressinto um Outono doce. Depois, haja o que houver, espero voltar inteira. Se puder, renovada..

Beijos, e obrigada pelas palavras que deixaram.

Luz

isabel mendes ferreira disse...

até breve LUZ.


beijo.


e


obrigada.

Druiel disse...

e depois do Outono virá sempre o Inverno, mas também a Primavera.

Beijinhos