"Aprendi com a primavera a me deixar cortar. E a voltar sempre inteira." (Cecília Meireles)
quarta-feira, setembro 17, 2008
domingo, setembro 07, 2008
It Seems Like Old Times
Annie and I broke up and I still can't get my mind around that. You know, I keep sifting the pieces of the relationship through my mind and-and examining my life and trying to figure out where did the screw-up come, you know, and a year ago we were in love. And it's funny… I'm not a morose type. I'm not a depressive character. Annie had moved back to New York. She was living in SoHo with some guy. We had lunch sometime and just kicked around old times.
Diane Keaton - It Seems Like Old Times
(c) Carmen Lombardo and John Jacob Loeb
Seems like old times, having you to walk with
Seems like old times, having you to talk with
And it's still a thrill just to have my arms around you
Still the thrill that it was the day I found you
Seems like old times, dinner dates and flowers
Just like old times, staying up for hours
Making dreams come true, doing things we used to do
Seems like old times being here with you
Seems like old times, dinner dates and flowers
Just like old times, staying up for hours
Making dreams come true, doing things we used to do
Seems like old times being here with you
Being here with you
sábado, agosto 23, 2008
Outono
Outono do amor
outono de aves
e de vozes caladas
e de folhas molhadas
de temor e surdo pranto
(Camões)
Quando a folha cair já não estarei por perto, de modo que podes dizer a toda gente que te deixei sem olhar para trás e sem razão aparente. Há em mim um cansaço de tudo o que não seja claro, como as razões porque não se escolhe o ser amado. Há em mim um sinal de fraqueza pelo fracasso constante de ser dois. Há em mim uma espécie de hábito (ou vício?) decalcado em cada traço dos nós que desfaço. Sei de antemão, e é por saber que não me atrevo a pedir perdão. De certa forma acho que tu sempre soubeste, mas isso nada mudaria, pois não? O ritual estava em marcha entre a caça e o caçador, e hoje foi o dia da caça. Passos demasiado rápidos nesse tango descompassado, e tudo volta ao mesmo: tu e eu, eu e tu. Nunca nós. Chego a pensar que o que amas em mim é apenas uma ideia, tão bela como a paisagem lunar vista de longe, tão árida e destituída de luz própria quando nela pousas. Dimensões interplanetárias nos separam e eu aqui tão perto (ainda…). Olha para mim como eu sou: far-te-á bem compreender que as razões, mesmo quando explicadas, são o que menos importa.
outono de aves
e de vozes caladas
e de folhas molhadas
de temor e surdo pranto
(Camões)
Quando a folha cair já não estarei por perto, de modo que podes dizer a toda gente que te deixei sem olhar para trás e sem razão aparente. Há em mim um cansaço de tudo o que não seja claro, como as razões porque não se escolhe o ser amado. Há em mim um sinal de fraqueza pelo fracasso constante de ser dois. Há em mim uma espécie de hábito (ou vício?) decalcado em cada traço dos nós que desfaço. Sei de antemão, e é por saber que não me atrevo a pedir perdão. De certa forma acho que tu sempre soubeste, mas isso nada mudaria, pois não? O ritual estava em marcha entre a caça e o caçador, e hoje foi o dia da caça. Passos demasiado rápidos nesse tango descompassado, e tudo volta ao mesmo: tu e eu, eu e tu. Nunca nós. Chego a pensar que o que amas em mim é apenas uma ideia, tão bela como a paisagem lunar vista de longe, tão árida e destituída de luz própria quando nela pousas. Dimensões interplanetárias nos separam e eu aqui tão perto (ainda…). Olha para mim como eu sou: far-te-á bem compreender que as razões, mesmo quando explicadas, são o que menos importa.
quarta-feira, agosto 20, 2008
Camadas de Prata
"La memoria y el olvido no son actos voluntarios"
(Jorge Luis Borges)

(Jorge Luis Borges)

Há marcas do tempo sobre a tua imagem, que não desaparecem como as palavras que escreveste. Ao contrário das palavras, as imagens são mais fáceis de assimilar e mais difíceis de esquecer. Guardo-te na memória como uma fotografia pálida cujos contornos se esvaem em camadas de prata. Só os negros profundos permanecem nítidos, em contraste com o que antes era luz.
As palavras, mesmo as escritas, levou-as o vento...
quinta-feira, julho 10, 2008
From Pangkor to Eden

Dizem que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes. Podia escrever a nossa história em ordem cronológica através dos hotéis onde nos amamos, do Porto Santo a Pangkor. Há algo impessoal e anónimo nos quartos de hotel bem arranjados e climatizados que me excita como se fosse a primeira vez. Talvez por isso trocamos sempre de hotel quando vou ter contigo ao rochedo. Talvez por nos sentirmos amantes fortuitos, como clandestinos de um navio em cruzeiro. Noites de calor entre paredes decoradas com gravuras em série, malas mal abertas e nós de passagem , ao som de hilariantes excertos musicais em jeito de trilha sonora. Loud and clear, intercalava a voz da telefonia ambiente na palafita sobre o Índico, enquanto a tempestade tropical jogava com as ondas ao ritmo dos nossos corpos encharcados. Ilhas de fantasia e de paixão nos cantos do mundo por onde nos deixamos, sabor dos teus beijos, cheiros e cores, promessas de eternidade esquecidas no check out. Sempre gostei de acordar ao teu lado, de me deixar estar quieta à espera que estendas o braço à minha procura antes de abrir os olhos. Sempre gostei de te amar de manhã, sem hora marcada. Sempre gostei dos quartos de hotel, lapsos do tempo em síntese de sonhos, onde jamais voltarei...
quarta-feira, julho 09, 2008
Et si c'ètait vrai

Sabes o que faço no Verão? Espero. O que? Não é essa a pergunta. Antes deves perguntar por quem. Agora sim, já te posso responder. Espero por impossíveis. Tu saberás quem traz em si a impossibilidade de me pertencer. Há quem acredite no Outono, há quem prefira a ternura, há ainda os que se refugiam em quases. Eu sou dos acreditam que nada é verdadeiramente impossível. Sou dos que esperam…
terça-feira, julho 08, 2008
Milesaway
Gosto dessa intimidade que nos liga. Dessa cumplicidade de quem se conhece na palavra e se descobre nos silêncios. Gosto da espera, e de uma certa alegria que me trouxeste. Gosto do meu riso dos teus disparates, do jogo e da apanhada. Gosto de madrugadas, de sardinhas assadas e de esplanadas no verão. Gosto de little jokes sem graça em português. Gosto do vento, que em ti é calmaria, e do mar, que em mim é ondulação.
Gosto tanto de ti...
sábado, julho 05, 2008
No Lux às três
Como sempre atrasei-me. Saí do carro apressada a pensar numa boa desculpa para te deixar à espera, às voltas com o teu vodka tónico a querer esganar-me antes mesmo de me abraçar. Enquanto subia a correr as escadas que vão dar ao bar ocorreu-me dizer-te a verdade só para te irritar. Sorri quando te vi ao longe, estavas mais magra mas seria capaz de te reconhecer no meio de uma multidão. O mesmo jeito de segurar o cigarro, a mesma boquilha de prata, o mesmo ar de impaciência para as minhas aldrabices, como te referias às desculpas foleiras que eu inventava sem sucesso. Detestavas a falta de pontualidade, que para ti era o meu pior defeito entre tantos outros que te levaram a aceitar a proposta do banco e partir para o Rio. Segundo o teu diagnóstico eu não fui feita para viver com ninguém, já te estavas a passar! … De costas, à conversa com o empregado (sempre gostaste de homens bonitos), tentavas disfarçar a impaciência com aquele tique de levar as mãos ao cabelo, um pouco mais escuro, o ar de femme fatal, quem não o conheça que o compre, já incomodada por estar ali sozinha. Fui-me aproximando devagar, a admirar a tua lábia, nunca resististe a por “um homem à morte”, dizias a rir, entre o sádico e o debochado, como convém a quem lhes tem tamanha indiferença. Nunca cheguei a perceber bem o quid pro quo. Um antigo aluno cumprimenta-me com perguntas idiotas sobre cursos bolonheses e aquele nervoso miudinho ao sentir o teu perfume. Quando te voltaste, ao ouvir o teu nome, o tempo voltou dez anos atrás em slow motion e parou de repente, em pausa, naquele bar à esquerda, numa noite de verão como essa, quando nos vimos pela primeira vez. Quase não consegui controlar a vontade louca de te beijar em frente à toda a gente, mas apenas sorri. Faltavam-me as palavras para dizer fosse o que fosse. Ficamos assim paradas por um instante, como que a tomar fôlego para as cenas seguintes de um filme que já vimos, vira o disco e toca o mesmo não fora um oceano. Percebi que substituíste o vodka tónico por uma reles caipiroska. Uma escorregadela nos gerúndios denunciou o interregno tropical, mas eras tu, tão tu e eu de novo. Estivemos assim, a ver o rio, a beber caipiroskas e irish whiskeys em silêncio depois da conversa de circunstância, sem pressa de nos trocarmos uma à outra. Às três da manhã, pontualmente, apagaste o cigarro, arranjaste o cabelo com as mãos e olhaste-me como da primeira vez. Vamos?
quarta-feira, julho 02, 2008
Sweet Mystery of Life
Minha vida que parece muito calma
Tem segredos que eu não posso revelar
Escondidos bem no fundo da minha alma
Não transparecem nem sequer em um olhar
Vive sempre conversando a sós comigo
Uma voz que eu escuto com fervor
Escolheu meu coração para seu abrigo
E dele fez um roseiral em flor
A ninguém revelarei o meu segredo
E nem direi quem é o meu Amor
terça-feira, julho 01, 2008
Nenhuma dor

Olha menina, não sejas tolinha… Deixa-te de poesias, um dia não são dias. Baixa as armas, não estejas sempre a bater. Sei que exagero, toda gente diz que um dia rebento de tanto querer. Não sabes de nada, não és para aqui chamada, andas entretida em caçadas, isso não vai dar em nada. Eu sou mesmo assim, demais por demais, dizes que sou muito centrada, que não presto atenção, não gosto da tua música e não acredito em ladrão. Podes crer, já vi esse filme, minha música é lenta, não sou nada cool… Deixa-te de poesias menina, vem comigo ao Guincho ver o pôr-do-sol. Chega mais perto, dá-me um beijinho e eu te faço carinho até anoitecer.
domingo, junho 29, 2008
O Preço da Felicidade
(..) Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa.
Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde,
desde as três eu começarei a ser feliz.
E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei.
Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada:
descobrirei o preço da felicidade!
Mas se chegares a uma hora qualquer,
eu nunca saberei a que horas é
que hei-de começar
a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... São precisos rituais.
a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... São precisos rituais.
- Que é um ritual? Perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa.
É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias;
uma hora, das outras horas. (...)
A. Saint-Exupéry, in "O Principezinho"
Photo (c) Robert Mapplethorpe
Saí de casa mais cedo para comprar as tuas flores preferidas. De caminho passei a buscar os camarões para o risotto com lima e açafrão, que dizes ser o melhor que algum dia provaste. A marquise de chocolate deixei-a pronta de véspera, só faltam as framboesas que encomendei ao Sr. Nicolau. O Alvarinho está no ponto. Pensei na minha avó, quando lhe perguntava pela receita dos melhores bolos do mundo. É o amor minha filha, um ingrediente que não se encontra nas mercearias. Estava nervosa… Disseste que chegavas às sete e meia mas os teus voos atrasam-se sempre e ainda tinha tanta coisa para fazer. Queria que tudo ficasse perfeito como tu gostas. Não, como eu gosto. Enquanto fazia a cama de lavado pensava no teu abraço à chegada, e em como seria bom ter-te comigo nestes primeiros dias do verão. Acabaram-se as velas. De escantilhão às Amoreiras e mais meia hora a escolher, sabes como sou hesitante e sem ti para ajudar fico pior. Acabei por trazer umas pequeninas com cheiro de fruta madura que espalhei pela casa, as flores frescas na jarra alta que me deste nos anos, a mesa posta com vista para o rio e uma leve brisa de fim de tarde a entrar pelo terraço. Tudo pronto, lembrei-me que gostas de me ver de branco. Contra relógio vesti-me três vezes até acertar, exagerei no perfume, senti-me a tremer quando reparei na hora, acendi um incenso, baixei o volume da música. Estavas quase a chegar…
quinta-feira, junho 26, 2008
Love Me Tender

Há momentos que não podemos explicar, como partes da nossa existência que se completam como um puzzle. Fragmentos que se encaixam compondo uma história cujo fim desconhecemos, mas aos poucos vislumbramos, à medida que começam a fazer sentido. Às vezes basta um olhar, e percebemos que estamos irremediavelmente perdidos. Antes de ti, amar era um verbo intransitivo, como se o meu amor fosse tanto e tão único que bastava-se a si próprio, e bastava-me a companhia desse amor que eu ainda não sabia que o era. Então aconteceu um daqueles momentos que não têm explicação, e esse momento foi um olhar que me encheu de pavor. Na minha mal disfarçada timidez devolvi-te um sorriso cabisbaixo, a consentir a sedução de encantadora de serpente, e eu, presa fácil da tua armadilha. Deixei-me amar como um cão sem dono que conhece o seu destino errante e serve o desejo de pertença de quem o acolhe com a mesma facilidade que o abandona. Só assim experimentei o teu amor, sempre a medo de te ver partir levando contigo a minha alegria de rafeiro agradecido. Pertencer-te foi algo inevitável, que não teve nada a ver com o meu amor, mas apenas com o teu, sem a mínima possibilidade de um dia se encontrarem. A nossa farsa, afinal, não passou de um folhetim. O meu erro foi levar-te a sério. End of story.
sábado, junho 21, 2008
I don't know why

Se também tivesses morrido eu podia chorar-te com saudades e falar contigo a olhar o céu. Arrumar-te-ia no mais fundo do meu coração e estarias sempre comigo, como os álbuns de fotografias na estante do escritório, separados por viagens ou por acontecimentos. Evidências de uma felicidade de que às vezes duvidaria se não pudesse ver, e mesmo assim pergunto-me se não serás fruto da minha imaginação. Mas assim, esse luto dos vivos não tem consolo. Mesmo quando deambulo pelas ruas de Lisboa e já não te vejo sair do autocarro, apressada para o trabalho, sei que estás ali. Se é verdade que as pessoas não morrem enquanto vivem no coração de quem ama, por que insisto na tua existência quando há tanto tempo morri?
domingo, junho 08, 2008
Sossegar
O sossego é, em grande parte, uma expressão espiritual de segurança. Sossegar é saber com o que se conta, desde o azul do céu aos irmãos. O coração sossega em quem se conhece. Sossegar é conhecer uma totalidade, as coisas feias ou bonitas, mas previsíveis e familiares. É por isso que sossega olhar para um rosto amado, que se conhece, ouvir a voz dessa pessoa, mesmo quando está a dizer disparates. Não há falinhas mansas que tragam o sossego dos gritos duma pessoa com quem se pode contar. É um alívio. Só a ordem pode sossegar, por muito alterosa que seja. A tempestade sosssega o marinheiro que conhece bem o barco e o mar.
Miguel Esteves Cardoso, in Verbos Irregulares
quinta-feira, junho 05, 2008
domingo, junho 01, 2008
Aurevoir, madame
Depois de fechares a porta e deixares as chaves ao pé do telefone, deitei mais uma dose de uísque sobre o gelo quase derretido, apaguei a luz e sentei-me em silêncio, sem nenhum pensamento sobre o que acabara de acontecer. A cabeça latejava ao ritmo do coração enquanto a garganta apertava, seca, e uma dor inexplicável contia as lágrimas que custavam a sair. Mais um golo, dessa vez mais longo, gelado, e sem desviar o olhar do cinzeiro cheio das beatas mal apagadas dos teus esseges senti a anestesia do álcool invadir-me aos poucos. Suave, dizia o maço vazio em cima da mesa, que estranho paradoxo...Se há algo que nunca existiu entre nós foi suavidade, mesmo antes de descobrires que eras muito nova para me amar como eu queria. Como eu queria, disseste, sem me dizeres como é possível amar de outro modo. Sem me dizeres como era o amor que tu querias. Como se eu não soubesse. Na estante, ao pé da janela entreaberta, fotografias da nossa primeira viagem a Londres, o teu sorriso tímido debaixo do chapéu-de-chuva em Regent Park, os olhos pequenos pela objectiva dentro a convidarem para um fim de tarde no quarto do hotel. O teu cheiro ainda impregnava a sala escura, o livro que deixaste marcado na mesa-de-cabeceira, os mesmos lençóis brancos onde na noite passada dormimos de costas voltadas, os cd espalhados, as roupas que depois passavas a buscar. Não sei quanto tempo permaneci assim, cercada de vestígios de nós, flashbacks de viagens e olhares e sorrisos e fotografias de quartos de hotel em ritmo de slideshow, até adormecer de cansaço. Acordei com o barulho dos eléctricos que protestavam com o carro que lhes travava a passagem. Depois de um longo suspiro levantei-me, percorri com o olhar o cenário de fim-de-festa, e por instinto iniciei o ritual das manhãs de domingo. Sumos de laranja, páginas do Expresso separadas na véspera, croissants de manteiga, chávenas de ristreto curto sem açúcar e duas aspirinas. Foi quando me dei conta de que não estavas a dormir até mais tarde, e que aquela manhã de domingo não seria igual a tantas outras.
Só o alívio foi maior que a solidão.
segunda-feira, maio 26, 2008
Breu
Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.

Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura.
O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.
Hilda Hilst
domingo, maio 25, 2008
sexta-feira, maio 23, 2008
Para sempre
Às cinco horas da manhã acordei com o frio do teu corpo encostado ao meu, e um suave arrepio na nuca à medida que deslizavas a tua língua à procura da minha. De costas voltadas abri os olhos, e sem um único movimento parei o olhar na luz do candeeiro da rua, que espreitava, tremula, entre as frestas da janela, deixando um rasto prateado no chão de madeira. O teu perfume misturava-se com o hálito quente e embriagado das palavras sem nexo que sussurravas ao meu ouvido enquanto esperavas pelo meu gesto, que conhecias de cor. Voltei a fechar os olhos e num movimento lento dei-te o espaço que pedias entre o meu corpo e as tuas mãos, deslizando a minha boca entre os teus seios, aprisionada pelo teu desejo. A luz que trespassava a janela tornou-se mais intensa e a tua respiração húmida invadiu a minha pele com gemidos exaustos, até me libertares do teu delírio numa vertigem silenciosa. Quando finalmente adormeceste o candeeiro já se tinha apagado, dando lugar aos primeiros raios de sol. Olhei para ti antes de fechar a janela, e na imagem do teu sono tinhas o rosto iluminado. Como uma fotografia, procurei o teu melhor ângulo, afastei os cabelos que escondiam os teus lábios, e guardei-te naquele instante.
Para sempre.
quinta-feira, maio 22, 2008
Papier Mâché
Photo (c) Annie Leibovitz
Numa tarde como essa, fria e chuvosa, disseste-me que não querias mais pintar, porque preferias ser feliz. Deitada no sofá da sala, com a cabeça sobre o meu joelho, olhaste-me em silêncio e eu soube que aquele momento era perfeito. O que é felicidade senão a tua mão na minha enquanto te aninhas ao meu colo entre gestos de ternura? Mas serias feliz sem a tua arte? E seria possível separar-te dela por um momento, em que preferes o amor a todas as amarguras que colas em papel machê? Passados tantos anos a única certeza que tenho sobre ti é aquela tarde. Mesmo quando vejo a evidência da tua infelicidade pregada em paredes anónimas, os teus olhos são os mesmos, mas as tuas mãos revelam que os momentos, há muito que deixaram de ser perfeitos.
domingo, maio 18, 2008
Um desvio no olhar

Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios.
(Nuno Júdice)
sábado, maio 17, 2008
Comptine D'un Autre Ete-L'Apre

Ontem andei às voltas pela cidade adormecida. Sabia que não voltaria à casa sem passar uma última vez pela Rua da Esperança. Desejei tanto que à entrada estreita houvesse um daqueles buracos que costumávamos praguejar, o caminhão do lixo a travar a passagem ou um qualquer obstáculo de última hora que me impedisse de atravessar o quarteirão, como era normal, mas nada disso aconteceu. Sem virar a esquina voltei para trás e dei comigo a pensar que raio de nome era aquele que se dava a uma rua e que aquela rua era a tua rua, e que eu já não passava de um transeunte desnorteado pelo adiantado da hora. Depois pensei que devia ter mais coragem, que é uma das coisas que perco ao pé de ti. Como um réu se levanta antes do veredicto, engoli em seco e virei à direita. Subi lentamente, quase por instinto, a rua apertada pelos prédios antigos da esperança. O meu coração bateu mais forte quando vi a tua janela aberta, a luz apagada, e aquele carro azul parado à tua porta, iluminado pelo candeeiro como uma peça de exposição. Foi nessa fracção de segundo, onde a imaginação deu lugar ao mais gélido vazio, que me morreste sem saber por quê, em plena rua da esperança. Ironia do destino, pensei, ou sarcasmo dos deuses?
quinta-feira, maio 15, 2008
quarta-feira, maio 14, 2008
Nature Boy

And while we spoke of many things
Fools and kings his he said to me
"The greatest things you'll ever learn
Is just to love and be loved in return "
(c) Eden Ahbez
terça-feira, maio 13, 2008
Blind Date

As pessoas já não são como no meu tempo… Quando saíamos à noite a preparação era uma espécie de ritual de acasalamento, onde tudo era cuidadosamente pensado, não fosse aquela ser “a” noite onde, quem sabe, iríamos encontrar o amor das nossas vidas…. Normalmente tudo começava com um jantar no Pap’açorda, seguido do religioso copo no Frágil, até serem horas da comunidade subir em apoteose a Rua da Imprensa Nacional (nunca antes das 2 da manhã), onde a Rosa Maria esperava-nos com ares de preceptora. Do porteiro ao barman toda gente se conhecia e se tratava por tu, entre beijos na boca e bons-dias do Pedro Lata, uísques, vodcas e um cheirinho de coca misturado com mil perfumes, suor e fumo, tudo embalado pelo génio musical do João Vaz, olhares de soslaio, engates furtivos, rapidinhas nas casas de banho e muita risada embriagada, até a Grace Jones mandar-nos embora ao som do la vie en rose anunciando a madrugada. Última dança, abraços anónimos, luzes a acender. Novas paixões e velhos casais à porta das padarias à espera de papos-secos quentinhos antes de caírem nos braços uns dos outros, exaustos de prazer, já quase de manhã. No meu tempo não havia carjacking nem blind dates, eu era feliz, e ninguém estava morto…
domingo, maio 04, 2008
Mimar você
(Caetano Veloso)
Te quero só pra mim
Você mora no meu coração
Não me deixe só aqui esperando mais um verão
Te espero meu bem
Pra gente se amar de novo
Mimar você
Nas quatro estações
Relembrar
O tempo que passamos juntos
Bem bom viver
Andar de mãos dadas
Na beira da praia
Por esse momento
Eu sempre esperei
quinta-feira, maio 01, 2008
This is for you...
Crazy....crazy for feeling so lonely
I’m crazy....crazy for feelin’ so blue.
I know...you’d love me as long as you wanted
And then someday,
You’d leave me for somebody new.
Worry...why do I let myself worry?
Wonderin’....what in the world did I do?
Crazy...for thinking that my love could hold you.
I’m crazy for tryin’
Crazy for cryin’
And I’m crazy for lov’in you!
Break..... Worry....why do I let myself worry?
And I’m crazy for lov’in you!
Break..... Worry....why do I let myself worry?
Wonderin’.....what id the world did I do?
Crazy...for thinking that my love could hold you
I’m crazy for tryin’
Crazy for cryin’
And I’m crazy ...for lov’in.....you.....
domingo, outubro 28, 2007
segunda-feira, setembro 24, 2007
(des) esperança
Confesso
que ainda te amo. Por isso criei esse espaço, para te falar de mim como se
aqui ainda pudesses escutar o meu coração. Sempre pensei que
amar era tudo o que eu precisava para ser feliz, mas sabes tão bem como eu que
amar não chega. E depois, quando amamos, temos de fazer alguma coisa com o
nosso amor quando já não somos mais amados, mesmo que seja coleccionar canções,
poemas, imagens e tudo o que nos traga migalhas de esperança. Em vão... Se há
algo que nada tem a ver com o amor é a esperança. A esperança mata lentamente o
pouco de nós que resiste ao abandono. Há-de chegar o momento em que uma
sensação definitiva de vazio me desperte para uma vida onde tu já não existes.
Nem o teu nome, nem o teu sorriso, nem o teu olhar significarão mais nada.
Então o amor terá simplesmente acabado da mesma forma como começou, por mero
acaso, no momento em que olhei para ti. Tem de ser assim, porque não pode ser
de outra forma. Nenhuma esperança poderá reacender em ti a chama, porque já
vives nessa outra vida em que eu já não sou e já não estou. Mas nada do que
faças poderá matar o meu amor por ti. O teu desprezo, a tua indiferença, a tua frieza,
servem apenas para me dar razões para não te amar, mas não para deixar de te
amar. O amor é meu, e não tens esse poder.
sábado, maio 26, 2007
Não te aflijas
(Flowers, Robert Mapplethorpe)
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
(c) Cecília Meireles
domingo, maio 13, 2007
Você não sabe...
Num apartamento perdido na cidade, alguém está tentando acreditar
que as coisas vão melhorar ultimamente.
A gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu
No meu apartamento você não sabe o quanto voei,
o quanto me aproximei de lá da Terra
As luzes da cidade não chegam as estrelas sem antes me buscar.
Na medida do impossível tá dando pra se viver.
Na cidade de Lisboa, o amor é imprevisível como você e eu e o céu.
(Rita Lee)
quinta-feira, maio 03, 2007
Patético

Desconheço o que o amanhã anunciará.
Todavia continuo a enviar cartas patéticas.
Porém não as escrever seria absurdo.
Palavras e pensamentos encarcerados são um veneno oculto.
Podem induzir um coma de antecipação.
Resta-me apenas celebrar as minhas fraquezas.
Já que meditar nas cogitações da vida é absolutamente fútil.
terça-feira, maio 01, 2007
Uma nódoa do passado...
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto...
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...
E em minha voz, a tua voz...
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado...
Eu deixarei...
Tu irás e encostarás tua face em outra face...
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada...
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...
porque eu fui o grande íntimo da noite...
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa...
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas, serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.
(Vinícius de Moraes in "Ausência")
sexta-feira, abril 27, 2007
Doce presença
Sei que mudamos desde o dia em que nos vimos
li nos teus olhos que escondiam meu destino luz tão intensa,
a mais doce presença no universo desse meu olhar
nós descobrimos nossos sonhos esquecidos e aí ficamos
cada vez mais parecidos mais convencidos,
quanto tempo perdido no universo desse meu olhar
como te perder ou tentar te esquecer
ainda mais que agora sei que somos iguais
e se duvidares, tens as minhas digitais
como esse amor pode ter fim
já tens meu corpo, minha alma, meus desejos
se olhar pra ti, estou olhando para mim mesmo
fim da procura tenho fé na loucura
de acreditar que sempre estás em mim
(Vítor Martins-Ivan Lins)
domingo, abril 22, 2007
Palabras
Esta noche al oído me has dicho dos palabras
Comunes.
Dos palabras cansadas
De ser dichas. Palabras
Que de viejas son nuevas.
Dos palabras tan dulces que la luna que andaba
Filtrando entre las rama
Se detuvo en mi boca.
Tan dulces dos palabras
Que una hormiga pasea por mi cuello y no intento
Moverme para echarla.
Tan dulces dos palabras - Que digo sin quererlo -
¡oh, qué bella, la vida!
Tan dulces y tan mansas
Que aceites olorosos sobre el cuerpo derraman.
Tan dulces y tan bellas
Que nerviosos, mis dedos,
Se mueven hacia el cielo imitando tijeras.
Oh, mis dedos quisieran
Cortar estrellas.
(Alfonsina Stormi)
sábado, abril 21, 2007
Prá lhe dizer que isso é pecado
Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto, evito tanto
E que no entanto volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo feito um tolo,
Procurar o desconsolo
Que eu cansei de conhecer
Novos dias tristes,
Noites claras, versos, cartas
Minha cara, ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração
(c) Tom Jobim e Chico Buarque in "Retrato em Branco e Preto"
quarta-feira, abril 18, 2007
Perdoar e Esperar

Ainda em desamor, tempo de amor será.
Seu tempo e contratempo.
Nascendo espesso como um arvoredo
E como tudo que nasce, morerendo
à medida que o tempo nos desgasta.
Amor, o que renasce.
Voltando sempre.
Docilmente sábio
Porque na suavidade nos convence
A perdoar e esperar.
Em vida. Em paz.
(c) Hilda Hilst
segunda-feira, abril 02, 2007
Quanta traição existe...

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje
ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca,
só expressão dorida
de quem é como a morte
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece mais que o sentir-se noutro
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno
que nenhuma imagem jamais separará...
(c) Jorge de Sena, in Visão Perpétua
quarta-feira, março 21, 2007
Palavras são palavras
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de serE de dizer coisas que podem magoar e te ofender
Mas cada um tem o seu jeito todo próprio de amar
E de se defender
Você me acusa e só me preocupa
Agrava mais e mais a minha culpa
E eu faço e desfaço, contra feito
O meu defeito é te amar demais.
Palavras são palavras
E a gente nem percebe
O que disse sem querer
E o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente de nós dois
Eu tento achar um jeito pra explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar
(Isolda/Milton Carlos)
segunda-feira, março 19, 2007
Um tempo de te amar
Preciso conduzir um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir no último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento,
e bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer, até o amor cair doente
Prefiro então partir a tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder,
te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada, nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado ao lado teu
(c) Cristovão Bastos/Chico Buarque in "Todo Sentimento"
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