domingo, junho 29, 2008

O Preço da Felicidade

(..) Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. 
Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. 
E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. 
Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! 
Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar
 a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... São precisos rituais. 
- Que é um ritual? Perguntou o principezinho. - É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. 
É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. (...) 

 A. Saint-Exupéry, in "O Principezinho" 



Photo (c) Robert Mapplethorpe


Saí de casa mais cedo para comprar as tuas flores preferidas. De caminho passei a buscar os camarões para o risotto com lima e açafrão, que dizes ser o melhor que algum dia provaste. A marquise de chocolate deixei-a pronta de véspera, só faltam as framboesas que encomendei ao Sr. Nicolau. O Alvarinho está no ponto. Pensei na minha avó, quando lhe perguntava pela receita dos melhores bolos do mundo. É o amor minha filha, um ingrediente que não se encontra nas mercearias. Estava nervosa… Disseste que chegavas às sete e meia mas os teus voos atrasam-se sempre e ainda tinha tanta coisa para fazer. Queria que tudo ficasse perfeito como tu gostas. Não, como eu gosto. Enquanto fazia a cama de lavado pensava no teu abraço à chegada, e em como seria bom ter-te comigo nestes primeiros dias do verão. Acabaram-se as velas. De escantilhão às Amoreiras e mais meia hora a escolher, sabes como sou hesitante e sem ti para ajudar fico pior. Acabei por trazer umas pequeninas com cheiro de fruta madura que espalhei pela casa, as flores frescas na jarra alta que me deste nos anos, a mesa posta com vista para o rio e uma leve brisa de fim de tarde a entrar pelo terraço. Tudo pronto, lembrei-me que gostas de me ver de branco. Contra relógio vesti-me três vezes até acertar, exagerei no perfume, senti-me a tremer quando reparei na hora, acendi um incenso, baixei o volume da música. Estavas quase a chegar…

quinta-feira, junho 26, 2008

Love Me Tender



Há momentos que não podemos explicar, como partes da nossa existência que se completam como um puzzle. Fragmentos que se encaixam compondo uma história cujo fim desconhecemos, mas aos poucos vislumbramos, à medida que começam a fazer sentido. Às vezes basta um olhar, e percebemos que estamos irremediavelmente perdidos. Antes de ti, amar era um verbo intransitivo, como se o meu amor fosse tanto e tão único que bastava-se a si próprio, e bastava-me a companhia desse amor que eu ainda não sabia que o era. Então aconteceu um daqueles momentos que não têm explicação, e esse momento foi um olhar que me encheu de pavor. Na minha mal disfarçada timidez devolvi-te um sorriso cabisbaixo, a consentir a sedução de encantadora de serpente, e eu, presa fácil da tua armadilha. Deixei-me amar como um cão sem dono que conhece o seu destino errante e serve o desejo de pertença de quem o acolhe com a mesma facilidade que o abandona. Só assim experimentei o teu amor, sempre a medo de te ver partir levando contigo a minha alegria de rafeiro agradecido. Pertencer-te foi algo inevitável, que não teve nada a ver com o meu amor, mas apenas com o teu, sem a mínima possibilidade de um dia se encontrarem. A nossa farsa, afinal, não passou de um folhetim. O meu erro foi levar-te a sério. End of story.

sábado, junho 21, 2008

I don't know why



Se também tivesses morrido eu podia chorar-te com saudades e falar contigo a olhar o céu. Arrumar-te-ia no mais fundo do meu coração e estarias sempre comigo, como os álbuns de fotografias na estante do escritório, separados por viagens ou por acontecimentos. Evidências de uma felicidade de que às vezes duvidaria se não pudesse ver, e mesmo assim pergunto-me se não serás fruto da minha imaginação. Mas assim, esse luto dos vivos não tem consolo. Mesmo quando deambulo pelas ruas de Lisboa e já não te vejo sair do autocarro, apressada para o trabalho, sei que estás ali. Se é verdade que as pessoas não morrem enquanto vivem no coração de quem ama, por que insisto na tua existência quando há tanto tempo morri?


domingo, junho 08, 2008

Sossegar

Photo (c) Daniel Malhão


O sossego é, em grande parte, uma expressão espiritual de segurança. Sossegar é saber com o que se conta, desde o azul do céu aos irmãos. O coração sossega em quem se conhece. Sossegar é conhecer uma totalidade, as coisas feias ou bonitas, mas previsíveis e familiares. É por isso que sossega olhar para um rosto amado, que se conhece, ouvir a voz dessa pessoa, mesmo quando está a dizer disparates. Não há falinhas mansas que tragam o sossego dos gritos duma pessoa com quem se pode contar. É um alívio. Só a ordem pode sossegar, por muito alterosa que seja. A tempestade sosssega o marinheiro que conhece bem o barco e o mar. 

Miguel Esteves Cardoso, in Verbos Irregulares


quinta-feira, junho 05, 2008

Goodbye, lady



It's Time to say Goodbye...


domingo, junho 01, 2008

Aurevoir, madame

(C) Pedro Casqueiro


Depois de fechares a porta e deixares as chaves ao pé do telefone, deitei mais uma dose de uísque sobre o gelo quase derretido, apaguei a luz e sentei-me em silêncio, sem nenhum pensamento sobre o que acabara de acontecer. A cabeça latejava ao ritmo do coração enquanto a garganta apertava, seca, e uma dor inexplicável contia as lágrimas que custavam a sair. Mais um golo, dessa vez mais longo, gelado, e sem desviar o olhar do cinzeiro cheio das beatas mal apagadas dos teus esseges senti a anestesia do álcool invadir-me aos poucos. Suave, dizia o maço vazio em cima da mesa, que estranho paradoxo...Se há algo que nunca existiu entre nós foi suavidade, mesmo antes de descobrires que eras muito nova para me amar como eu queria. Como eu queria, disseste, sem me dizeres como é possível amar de outro modo. Sem me dizeres como era o amor que tu querias. Como se eu não soubesse. Na estante, ao pé da janela entreaberta, fotografias da nossa primeira viagem a Londres, o teu sorriso tímido debaixo do chapéu-de-chuva em Regent Park, os olhos pequenos pela objectiva dentro a convidarem para um fim de tarde no quarto do hotel. O teu cheiro ainda impregnava a sala escura, o livro que deixaste marcado na mesa-de-cabeceira, os mesmos lençóis brancos onde na noite passada dormimos de costas voltadas, os cd espalhados, as roupas que depois passavas a buscar. Não sei quanto tempo permaneci assim, cercada de vestígios de nós, flashbacks de viagens e olhares e sorrisos e fotografias de quartos de hotel em ritmo de slideshow, até adormecer de cansaço. Acordei com o barulho dos eléctricos que protestavam com o carro que lhes travava a passagem. Depois de um longo suspiro levantei-me, percorri com o olhar o cenário de fim-de-festa, e por instinto iniciei o ritual das manhãs de domingo. Sumos de laranja, páginas do Expresso separadas na véspera, croissants de manteiga, chávenas de ristreto curto sem açúcar e duas aspirinas. Foi quando me dei conta de que não estavas a dormir até mais tarde, e que aquela manhã de domingo não seria igual a tantas outras. Só o alívio foi maior que a solidão.


segunda-feira, maio 26, 2008

Breu


Existe a noite, e existe o breu. 
 Noite é o velado coração de Deus 
 Esse que por pudor não mais procuro.





Breu é quando tu te afastas ou dizes 
Que viajas, e um sol de gelo 
Petrifica-me a cara e desobriga-me 
De fidelidade e de conjura. 
 O desejo Este da carne, a mim não me faz medo. 
Assim como me veio, também não me avassala. 
 Sabes por quê? Lutei com Aquele. 
E dele também não fui lacaia. 

 Hilda Hilst

domingo, maio 25, 2008

Segredo



"Vivo de um segredo que se irradia em raios luminosos que me ofuscariam se eu não os cobrisse com um manto pesado de falsas certezas."

Clarice Lispector

sexta-feira, maio 23, 2008

Para sempre

Photo (c) Manolo Martin


Às cinco horas da manhã acordei com o frio do teu corpo encostado ao meu, e um suave arrepio na nuca à medida que deslizavas a tua língua à procura da minha. De costas voltadas abri os olhos, e sem um único movimento parei o olhar na luz do candeeiro da rua, que espreitava, tremula, entre as frestas da janela, deixando um rasto prateado no chão de madeira. O teu perfume misturava-se com o hálito quente e embriagado das palavras sem nexo que sussurravas ao meu ouvido enquanto esperavas pelo meu gesto, que conhecias de cor. Voltei a fechar os olhos e num movimento lento dei-te o espaço que pedias entre o meu corpo e as tuas mãos, deslizando a minha boca entre os teus seios, aprisionada pelo teu desejo. A luz que trespassava a janela tornou-se mais intensa e a tua respiração húmida invadiu a minha pele com gemidos exaustos, até me libertares do teu delírio numa vertigem silenciosa. Quando finalmente adormeceste o candeeiro já se tinha apagado, dando lugar aos primeiros raios de sol. Olhei para ti antes de fechar a janela, e na imagem do teu sono tinhas o rosto iluminado. Como uma fotografia, procurei o teu melhor ângulo, afastei os cabelos que escondiam os teus lábios, e guardei-te naquele instante. Para sempre.


quinta-feira, maio 22, 2008

Papier Mâché

Photo (c) Annie Leibovitz


Numa tarde como essa, fria e chuvosa, disseste-me que não querias mais pintar, porque preferias ser feliz. Deitada no sofá da sala, com a cabeça sobre o meu joelho, olhaste-me em silêncio e eu soube que aquele momento era perfeito. O que é felicidade senão a tua mão na minha enquanto te aninhas ao meu colo entre gestos de ternura? Mas serias feliz sem a tua arte? E seria possível separar-te dela por um momento, em que preferes o amor a todas as amarguras que colas em papel machê? Passados tantos anos a única certeza que tenho sobre ti é aquela tarde. Mesmo quando vejo a evidência da tua infelicidade pregada em paredes anónimas, os teus olhos são os mesmos, mas as tuas mãos revelam que os momentos, há muito que deixaram de ser perfeitos.


domingo, maio 18, 2008

Um desvio no olhar



Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios. 

(Nuno Júdice)

sábado, maio 17, 2008

Comptine D'un Autre Ete-L'Apre



Ontem andei às voltas pela cidade adormecida. Sabia que não voltaria à casa sem passar uma última vez pela Rua da Esperança. Desejei tanto que à entrada estreita houvesse um daqueles buracos que costumávamos praguejar, o caminhão do lixo a travar a passagem ou um qualquer obstáculo de última hora que me impedisse de atravessar o quarteirão, como era normal, mas nada disso aconteceu. Sem virar a esquina voltei para trás e dei comigo a pensar que raio de nome era aquele que se dava a uma rua e que aquela rua era a tua rua, e que eu já não passava de um transeunte desnorteado pelo adiantado da hora. Depois pensei que devia ter mais coragem, que é uma das coisas que perco ao pé de ti. Como um réu se levanta antes do veredicto, engoli em seco e virei à direita. Subi lentamente, quase por instinto, a rua apertada pelos prédios antigos da esperança. O meu coração bateu mais forte quando vi a tua janela aberta, a luz apagada, e aquele carro azul parado à tua porta, iluminado pelo candeeiro como uma peça de exposição. Foi nessa fracção de segundo, onde a imaginação deu lugar ao mais gélido vazio, que me morreste sem saber por quê, em plena rua da esperança. Ironia do destino, pensei, ou sarcasmo dos deuses?


quinta-feira, maio 15, 2008

Une nuit après nous

(c) Alfred Wickel

Même quand nous dormons nous veillons l’un sur l’autre 
Et cet amour plus lourd que le fruit mûr d’un lac 
Sans rire et sans pleurer dure depuis toujours 
Un jour après un jour une nuit après nous 

(Paul Éluard)

quarta-feira, maio 14, 2008

Nature Boy



A magic day he passed my way 
And while we spoke of many things 
Fools and kings his he said to me 
"The greatest things you'll ever learn
Is just to love and be loved in return "

(c) Eden Ahbez


















terça-feira, maio 13, 2008

Blind Date



As pessoas já não são como no meu tempo… Quando saíamos à noite a preparação era uma espécie de ritual de acasalamento, onde tudo era cuidadosamente pensado, não fosse aquela ser “a” noite onde, quem sabe, iríamos encontrar o amor das nossas vidas…. Normalmente tudo começava com um jantar no Pap’açorda, seguido do religioso copo no Frágil, até serem horas da comunidade subir em apoteose a Rua da Imprensa Nacional (nunca antes das 2 da manhã), onde a Rosa Maria esperava-nos com ares de preceptora. Do porteiro ao barman toda gente se conhecia e se tratava por tu, entre beijos na boca e bons-dias do Pedro Lata, uísques, vodcas e um cheirinho de coca misturado com mil perfumes, suor e fumo, tudo embalado pelo génio musical do João Vaz, olhares de soslaio, engates furtivos, rapidinhas nas casas de banho e muita risada embriagada, até a Grace Jones mandar-nos embora ao som do la vie en rose anunciando a madrugada. Última dança, abraços anónimos, luzes a acender. Novas paixões e velhos casais à porta das padarias à espera de papos-secos quentinhos antes de caírem nos braços uns dos outros, exaustos de prazer, já quase de manhã. No meu tempo não havia carjacking nem blind dates, eu era feliz, e ninguém estava morto…




domingo, maio 04, 2008

Mimar você






(Caetano Veloso)


Te quero só pra mim 
Você mora no meu coração 
Não me deixe só aqui esperando mais um verão 
Te espero meu bem 
Pra gente se amar de novo 
Mimar você Nas quatro estações 
Relembrar 
O tempo que passamos juntos 
Bem bom viver 
Andar de mãos dadas 
Na beira da praia Por esse momento 
Eu sempre esperei

quinta-feira, maio 01, 2008

This is for you...




Crazy....crazy for feeling so lonely 
I’m crazy....crazy for feelin’ so blue. 
I know...you’d love me as long as you wanted 
And then someday, 
You’d leave me for somebody new. 
Worry...why do I let myself worry? 
Wonderin’....what in the world did I do? 
Crazy...for thinking that my love could hold you. 
I’m crazy for tryin’ Crazy for cryin’ 
And I’m crazy for lov’in you! 
Break..... Worry....why do I let myself worry? 
Wonderin’.....what id the world did I do? 
Crazy...for thinking that my love could hold you 
I’m crazy for tryin’ Crazy for cryin’ 
And I’m crazy ...for lov’in.....you.....

domingo, outubro 28, 2007

Cansaço

Happy Hour (C) Bruno Pacheco


O que há em mim é sobretudo cansaço 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
 Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço… 

 (Álvaro de Campos)

segunda-feira, setembro 24, 2007

(des) esperança



Confesso que ainda te amo. Por isso criei esse espaço, para te falar de mim como se aqui ainda pudesses escutar o meu coração. Sempre pensei que amar era tudo o que eu precisava para ser feliz, mas sabes tão bem como eu que amar não chega. E depois, quando amamos, temos de fazer alguma coisa com o nosso amor quando já não somos mais amados, mesmo que seja coleccionar canções, poemas, imagens e tudo o que nos traga migalhas de esperança. Em vão... Se há algo que nada tem a ver com o amor é a esperança. A esperança mata lentamente o pouco de nós que resiste ao abandono. Há-de chegar o momento em que uma sensação definitiva de vazio me desperte para uma vida onde tu já não existes. Nem o teu nome, nem o teu sorriso, nem o teu olhar significarão mais nada. Então o amor terá simplesmente acabado da mesma forma como começou, por mero acaso, no momento em que olhei para ti. Tem de ser assim, porque não pode ser de outra forma. Nenhuma esperança poderá reacender em ti a chama, porque já vives nessa outra vida em que eu já não sou e já não estou. Mas nada do que faças poderá matar o meu amor por ti. O teu desprezo, a tua indiferença, a tua frieza, servem apenas para me dar razões para não te amar, mas não para deixar de te amar. O amor é meu, e não tens esse poder.

sábado, maio 26, 2007

Não te aflijas


(Flowers, Robert Mapplethorpe) 

Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim. 
Rosas verá, só de cinzas franzida, mortas, intactas pelo teu jardim.
 Eu deixo aroma até nos meus espinhos ao longe, o vento vai falando de mim.
 E por perder-me é que vão me lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim. 

 (c) Cecília Meireles

domingo, maio 13, 2007

Você não sabe...



Num apartamento perdido na cidade, alguém está tentando acreditar 
que as coisas vão melhorar ultimamente. 
A gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu 
No meu apartamento você não sabe o quanto voei, 
o quanto me aproximei de lá da Terra 
As luzes da cidade não chegam as estrelas sem antes me buscar. 
Na medida do impossível tá dando pra se viver. 
Na cidade de Lisboa, o amor é imprevisível como você e eu e o céu. 

(Rita Lee)

quinta-feira, maio 03, 2007

Patético



Desconheço o que o amanhã anunciará. Todavia continuo a enviar cartas patéticas. Porém não as escrever seria absurdo. Palavras e pensamentos encarcerados são um veneno oculto. Podem induzir um coma de antecipação. Resta-me apenas celebrar as minhas fraquezas. Já que meditar nas cogitações da vida é absolutamente fútil.

terça-feira, maio 01, 2007

Uma nódoa do passado...



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces... 
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto... 
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida... 
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto... 
E em minha voz, a tua voz... 
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado... 
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados... 
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada... 
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado... 
Eu deixarei...
Tu irás e encostarás tua face em outra face... 
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada... 
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...
porque eu fui o grande íntimo da noite... 
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa... 
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço 
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. 
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos 
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir. 
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas, serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada. 

 (Vinícius de Moraes in "Ausência")

sexta-feira, abril 27, 2007

Doce presença



Sei que mudamos desde o dia em que nos vimos 
li nos teus olhos que escondiam meu destino luz tão intensa, 
a mais doce presença no universo desse meu olhar 
 nós descobrimos nossos sonhos esquecidos e aí ficamos 
cada vez mais parecidos mais convencidos, 
quanto tempo perdido no universo desse meu olhar 
como te perder ou tentar te esquecer 
ainda mais que agora sei que somos iguais 
e se duvidares, tens as minhas digitais 
como esse amor pode ter fim 
já tens meu corpo, minha alma, meus desejos 
se olhar pra ti, estou olhando para mim mesmo
fim da procura tenho fé na loucura 
de acreditar que sempre estás em mim 

 (Vítor Martins-Ivan Lins)

domingo, abril 22, 2007

Palabras




Esta noche al oído me has dicho dos palabras 
Comunes. 
Dos palabras cansadas 
De ser dichas. Palabras 
Que de viejas son nuevas. 
Dos palabras tan dulces que la luna que andaba 
Filtrando entre las rama 
Se detuvo en mi boca. 
Tan dulces dos palabras 
Que una hormiga pasea por mi cuello y no intento 
Moverme para echarla. 
Tan dulces dos palabras - Que digo sin quererlo - 
¡oh, qué bella, la vida!
Tan dulces y tan mansas 
Que aceites olorosos sobre el cuerpo derraman. 
Tan dulces y tan bellas 
Que nerviosos, mis dedos, 
Se mueven hacia el cielo imitando tijeras. 
Oh, mis dedos quisieran 
Cortar estrellas. 

 (Alfonsina Stormi)

sábado, abril 21, 2007

Prá lhe dizer que isso é pecado





Já conheço os passos dessa estrada 
Sei que não vai dar em nada
 Seus segredos sei de cor 
Já conheço as pedras do caminho 
E sei também que ali sozinho 
Eu vou ficar tanto pior 
O que é que eu posso contra o encanto 
Desse amor que eu nego tanto, evito tanto 
E que no entanto volta sempre a enfeitiçar 
Com seus mesmos tristes velhos fatos 
Que num álbum de retrato eu teimo em colecionar 
Lá vou eu de novo feito um tolo, 
Procurar o desconsolo 
Que eu cansei de conhecer 
Novos dias tristes, 
Noites claras, versos, cartas 
Minha cara, ainda volto a lhe escrever 
Pra lhe dizer que isso é pecado 
Eu trago o peito tão marcado 
De lembranças do passado 
E você sabe a razão 
Vou colecionar mais um soneto 
Outro retrato em branco e preto 
A maltratar meu coração 

(c) Tom Jobim e Chico Buarque in "Retrato em Branco e Preto"

quarta-feira, abril 18, 2007

Perdoar e Esperar



Ainda em desamor, tempo de amor será. 
Seu tempo e contratempo. 
Nascendo espesso como um arvoredo 
E como tudo que nasce, morerendo à medida que o tempo nos desgasta. 
Amor, o que renasce. 
Voltando sempre. 
Docilmente sábio 
Porque na suavidade nos convence 
A perdoar e esperar. 
Em vida. Em paz. 

 (c) Hilda Hilst

segunda-feira, abril 02, 2007

Quanta traição existe...



Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço 
em que de penetrar-te me senti perdido 
no ter-te para sempre 
Quanto de ter-te me possui em tudo o que eu deseje 
ou veja não pensando em ti no abraço a que me entrego 
Quanto de entrega é como um rosto aberto, 
sem olhos e sem boca, 
só expressão dorida de quem é como a morte 
Quanto de morte recebi de ti, 
na pura perda de possuir-te em vão de amor que nos traiu 
Quanta traição existe em possuir-se a gente 
sem conhecer que o corpo não conhece mais que o sentir-se noutro 
Quanto sentir-te e me sentires não foi senão o encontro eterno 
que nenhuma imagem jamais separará... 

(c) Jorge de Sena, in Visão Perpétua

quarta-feira, março 21, 2007

Palavras são palavras

Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
E de dizer coisas que podem magoar e te ofender
Mas cada um tem o seu jeito todo próprio de amar
E de se defender
Você me acusa e só me preocupa
Agrava mais e mais a minha culpa
E eu faço e desfaço, contra feito
O meu defeito é te amar demais.
Palavras são palavras
E a gente nem percebe
O que disse sem querer
E o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente de nós dois
Eu tento achar um jeito pra explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar

(Isolda/Milton Carlos)

segunda-feira, março 19, 2007

Um tempo de te amar





Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente 
Preciso conduzir um tempo de te amar 
Te amando devagar e urgentemente 
Pretendo descobrir no último momento 
Um tempo que refaz o que desfez 
Que recolhe todo sentimento, 
e bota no corpo uma outra vez 
Prometo te querer, até o amor cair doente 
Prefiro então partir a tempo de poder 
A gente se desvencilhar da gente 
Depois de te perder, 
te encontro com certeza 
Talvez no tempo da delicadeza 
Onde não diremos nada, nada aconteceu 
Apenas seguirei como encantado ao lado teu 

(c) Cristovão Bastos/Chico Buarque in "Todo Sentimento"

segunda-feira, março 12, 2007

Amor, meu grande amor

Amor, meu grande amor 
Não chegue na hora marcada 
Amor, meu grande amor 
Me chegue assim bem de repente 
Sem nome ou sobrenome 
Sem sentir o que não sente ... 
Amor, meu grande amor 
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser 
Que seja de qualquer maneira 
Enquanto me tiver 
Que eu seja a última e a primeira 
E quando eu te encontrar, meu grande amor 
Me reconheça ... 
Amor, meu grande amor 
Que eu seja a última e a primeira 
E quando eu te encontrar, meu grande amor 
Por favor, me reconheça 

(Ângela Rô Rô, in "Amor, meu grande amor")

segunda-feira, março 05, 2007

Metade


Que a força do medo que eu tenho, 
não me impeça de ver o que anseio 
Porque metade de mim é o que eu grito, 
mas a outra metade é silêncio... 

(...) 

Que essa minha vontade de ir embora 
se transforme na calma e na paz que eu mereço 
E que essa tensão que me corrói por dentro 
seja um dia recompensada 
Porque metade de mim é o que eu penso 
mas a outra metade é um vulcão 

(...) 

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
 para me fazer aquietar o espírito 
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, 
e a outra metade eu não sei 

(...) 

E que o teu silêncio me fale cada vez mais 
Porque metade de mim é abrigo, 
mas a outra metade é cansaço 

(...) 

E que a minha loucura seja perdoada, 
Porque metade de mim é amor, 
e a outra metade...também... 

 (Oswaldo Montenegro, in “Metade”)


sexta-feira, março 02, 2007

Amor e Sexo

Amor é um livro, sexo é esporte
Sexo é escolha, amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela, sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa, sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos
Amor é cristão, sexo é pagão
Amor é latifúndio, sexo é invasão
Amor é divino, sexo é animal
Amor é bossa nova, sexo é carnaval
Amor é para sempre, sexo também
Sexo é do bom, amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade
Amor é um, sexo é dois
Sexo antes, amor depois
Sexo vem dos outros e vai embora
Amor vem de nós e demora
Amor é isso, sexo é aquilo
E coisa e tal, e tal e coisa...
Ai, o amor...Hum, o sexo...
(Rita Lee)

quinta-feira, março 01, 2007

Um Amor Impossível



Amanhã
este fogo cresce.
Amanhã, tremor
Amanhã, suspiro.
Insiste
um amor impossível
amanhã.
Insiste, sim.
Um amor impossível
pode ser amanhã.


(Angela Melim)

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Pour Toi


Notre vie est divisée, et comme distribuée dans une balance, en deux plateaux opposés où elle tient tout entière. Dans l'un, il y a notre désir de ne pas déplaire, de ne pas paraître trop humble à l'être que nous aimons sans parvenir à le comprendre, mais que nous trouvons plus habile de laisser un peu de côté pour qu'il n'ait pas ce sentiment de se croire indispensable, qui le détournerait de nous; de l'autre côté il y a une souffrance - non pas une souffrance localisée et partielle - qui ne pourrait au contraire être apaisée que si, renonçant au plaisir de plaire à cette femme et à lui faire croire que nous pouvons nous passer d'elle, nous allions la retrouver. Qu'on retire du plateau où est la fierté une petite quantité de volonté qu'on a eu la faiblesse de laisser s'user avec l'âge, qu'on ajoute dans le plateau où est le chagrin une souffrance physique acquise et à qui on a permis de s'aggraver, et au lieu de la solution courageuse qui l'aurait emporté à vingt ans, c'est l'autre, devenue trop lourde et sans assez de contre-poids, qui nous abaisse à cinquante.

(Marcel Proust)

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Par délicatesse




Oisive jeunesse 
A tout asservie, 
Par délicatesse 
J'ai perdu ma vie. 

(c) Rimbaud, in CHANSON DE LA PLUS HAUTE TOUR

sábado, fevereiro 10, 2007

My Perfect Valentine's Day



Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela 
Não pode ser, diz-lhe numa prece 
Que ela regresse, porque eu não posso 
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade 
É que sem ela não há paz, não há beleza 
É só tristeza e a melancolia 
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai 
 Mas se ela voltar, se ela voltar, 
Que coisa linda, que coisa louca 
Pois há menos peixinhos a nadar no mar 
Do que os beijinhos que eu darei 
Na sua boca, dentro dos meus braços 
Os abraços hão de ser, milhões de abraços 
Apertado assim, colado assim, calado assim 
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim 
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim. 
Não quero mais esse negócio de você longe de mim...

(Tom Jobim, Chega de Saudade)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Magic Kingdon Club

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. ... 
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. ... 
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 

 Fernando Pessoa (Álvaro de Campos),in Aniversário

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Gosto de Nova Iorque


Gosto de frio 
Não gosto de chuva 
Gosto de iogurte 
Não gosto de nata 
Gosto de pera 
Não gosto de beterraba 
Gosto de verde 
Não gosto de amarelo 
Gosto do campo na primavera 
Não gosto da praia no verão 
Gosto de fotografia 
Não gosto de instalação 
Gosto de cães e de gatos
Não gosto de cobras e ratos 
Gosto de viajar 
Não gosto de ficar 
Gosto da noite 
Não gosto da tarde 
Gosto de arquitectura 
Não gosto de casas de azulejo 
Gosto da Beira Alta 
Não gosto da Beira Baixa 
Gosto do Pap’açorda 
Não gosto da bica do sapato 
Gosto de música clássica 
Não gosto de heavy metal 
Gosto de hotéis 
Não gosto de acampamentos 
Gosto de pintura 
Não gosto de banda desenhada 
Gosto do Sagres
Não gosto de Albufeira
Gosto de futebol 
Não gosto de hóquei em patins 
Gosto de ler 
Não gosto de estudar 
Gosto de edredon 
Não gosto de cobertor 
Gosto do Alentejo 
Não gosto do Ribatejo 
Gosto da Cindy Sherman 
Não gosto da Sophie Calle 
Gosto de São Paulo 
Não gosto do Rio 
Gosto de poesia 
Não gosto de biografia 
Gosto de uísque 
Não gosto de rum 
Gosto de queijo 
Não gosto de patê 
Gosto de cinema 
Não gosto de vídeoclipe 
Gosto de criança 
Não gosto de adolescente 
Gosto da Meryl Streep 
Não gosto da Scarlett Johansson 
Gosto de Mozart 
Não gosto de Wagner 
Gosto de comboio 
Não gosto de autocarro 
Gosto de jeans 
Não gosto de saia 
Gosto de café 
Não gosto de tisanas 
Gosto do Paul Auster 
Não gosto do Lobo Antunes 
Gosto de pipocas 
Não gosto de rebuçados 
Gosto de jogar gamão 
Não gosto de jogar bridge 
Gosto de guiar 
Não gosto de ir ao lado 
Gosto de rir 
Não gosto de fingir 
Gosto de plantas 
Não gosto de bibelots 
Gosto de jantar fora 
Não gosto de casamentos 
Gosto de beijo 
Não gosto de qualquer beijo 
Gosto de vinho tinto 
Não gosto de vinho branco 
Gosto de havaianas 
Não gosto de saltos altos 
Gosto de Milão 
Não gosto de Turim 
Gosto do cheiro de terra húmida 
Não gosto de cheiro de igreja 
Gosto do Caetano 
Não gosto da Bethânia 
Gosto de tulipas 
Não gosto de margaridas 
Gosto de lareira 
Não gosto de salamandras 
Gosto do Rodrigo Leão 
Não gosto do Rui Veloso 
Gosto do mar do Porto Santo 
Não gosto do mar do Guincho 
Gosto de Astrologia 
Não gosto de Tarot 
Gosto de Nova Iorque 
Não gosto de Kuala Lumpur 
Gosto da neve 
Não gosto de calor 
Gosto de política 
Não gosto de concursos 
Gosto de bossa nova 
Não gosto de carnaval 
Gosto de escrever 
Não gosto de e-mails 
Gosto de massagem 
Não gosto de sauna 
Gosto de sardinhas assadas 
Não gosto de peixe frito 
Gosto da Dulce Pontes 
Não gosto da Mariza 
Gosto de andar 
Não gosto de correr 
Gosto de silêncio 
Não gosto de confusão 
Gosto dos meus amigos 
Não gosto quando não são
 Gosto de gostar 
Não gosto quando não gosto 
Gosto de ti 
Não gosto de ti...