quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Pour Toi


Notre vie est divisée, et comme distribuée dans une balance, en deux plateaux opposés où elle tient tout entière. Dans l'un, il y a notre désir de ne pas déplaire, de ne pas paraître trop humble à l'être que nous aimons sans parvenir à le comprendre, mais que nous trouvons plus habile de laisser un peu de côté pour qu'il n'ait pas ce sentiment de se croire indispensable, qui le détournerait de nous; de l'autre côté il y a une souffrance - non pas une souffrance localisée et partielle - qui ne pourrait au contraire être apaisée que si, renonçant au plaisir de plaire à cette femme et à lui faire croire que nous pouvons nous passer d'elle, nous allions la retrouver. Qu'on retire du plateau où est la fierté une petite quantité de volonté qu'on a eu la faiblesse de laisser s'user avec l'âge, qu'on ajoute dans le plateau où est le chagrin une souffrance physique acquise et à qui on a permis de s'aggraver, et au lieu de la solution courageuse qui l'aurait emporté à vingt ans, c'est l'autre, devenue trop lourde et sans assez de contre-poids, qui nous abaisse à cinquante.

(Marcel Proust)

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Par délicatesse




Oisive jeunesse 
A tout asservie, 
Par délicatesse 
J'ai perdu ma vie. 

(c) Rimbaud, in CHANSON DE LA PLUS HAUTE TOUR

sábado, fevereiro 10, 2007

My Perfect Valentine's Day



Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela 
Não pode ser, diz-lhe numa prece 
Que ela regresse, porque eu não posso 
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade 
É que sem ela não há paz, não há beleza 
É só tristeza e a melancolia 
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai 
 Mas se ela voltar, se ela voltar, 
Que coisa linda, que coisa louca 
Pois há menos peixinhos a nadar no mar 
Do que os beijinhos que eu darei 
Na sua boca, dentro dos meus braços 
Os abraços hão de ser, milhões de abraços 
Apertado assim, colado assim, calado assim 
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim 
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim. 
Não quero mais esse negócio de você longe de mim...

(Tom Jobim, Chega de Saudade)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Magic Kingdon Club

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. ... 
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. ... 
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 

 Fernando Pessoa (Álvaro de Campos),in Aniversário

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Gosto de Nova Iorque


Gosto de frio 
Não gosto de chuva 
Gosto de iogurte 
Não gosto de nata 
Gosto de pera 
Não gosto de beterraba 
Gosto de verde 
Não gosto de amarelo 
Gosto do campo na primavera 
Não gosto da praia no verão 
Gosto de fotografia 
Não gosto de instalação 
Gosto de cães e de gatos
Não gosto de cobras e ratos 
Gosto de viajar 
Não gosto de ficar 
Gosto da noite 
Não gosto da tarde 
Gosto de arquitectura 
Não gosto de casas de azulejo 
Gosto da Beira Alta 
Não gosto da Beira Baixa 
Gosto do Pap’açorda 
Não gosto da bica do sapato 
Gosto de música clássica 
Não gosto de heavy metal 
Gosto de hotéis 
Não gosto de acampamentos 
Gosto de pintura 
Não gosto de banda desenhada 
Gosto do Sagres
Não gosto de Albufeira
Gosto de futebol 
Não gosto de hóquei em patins 
Gosto de ler 
Não gosto de estudar 
Gosto de edredon 
Não gosto de cobertor 
Gosto do Alentejo 
Não gosto do Ribatejo 
Gosto da Cindy Sherman 
Não gosto da Sophie Calle 
Gosto de São Paulo 
Não gosto do Rio 
Gosto de poesia 
Não gosto de biografia 
Gosto de uísque 
Não gosto de rum 
Gosto de queijo 
Não gosto de patê 
Gosto de cinema 
Não gosto de vídeoclipe 
Gosto de criança 
Não gosto de adolescente 
Gosto da Meryl Streep 
Não gosto da Scarlett Johansson 
Gosto de Mozart 
Não gosto de Wagner 
Gosto de comboio 
Não gosto de autocarro 
Gosto de jeans 
Não gosto de saia 
Gosto de café 
Não gosto de tisanas 
Gosto do Paul Auster 
Não gosto do Lobo Antunes 
Gosto de pipocas 
Não gosto de rebuçados 
Gosto de jogar gamão 
Não gosto de jogar bridge 
Gosto de guiar 
Não gosto de ir ao lado 
Gosto de rir 
Não gosto de fingir 
Gosto de plantas 
Não gosto de bibelots 
Gosto de jantar fora 
Não gosto de casamentos 
Gosto de beijo 
Não gosto de qualquer beijo 
Gosto de vinho tinto 
Não gosto de vinho branco 
Gosto de havaianas 
Não gosto de saltos altos 
Gosto de Milão 
Não gosto de Turim 
Gosto do cheiro de terra húmida 
Não gosto de cheiro de igreja 
Gosto do Caetano 
Não gosto da Bethânia 
Gosto de tulipas 
Não gosto de margaridas 
Gosto de lareira 
Não gosto de salamandras 
Gosto do Rodrigo Leão 
Não gosto do Rui Veloso 
Gosto do mar do Porto Santo 
Não gosto do mar do Guincho 
Gosto de Astrologia 
Não gosto de Tarot 
Gosto de Nova Iorque 
Não gosto de Kuala Lumpur 
Gosto da neve 
Não gosto de calor 
Gosto de política 
Não gosto de concursos 
Gosto de bossa nova 
Não gosto de carnaval 
Gosto de escrever 
Não gosto de e-mails 
Gosto de massagem 
Não gosto de sauna 
Gosto de sardinhas assadas 
Não gosto de peixe frito 
Gosto da Dulce Pontes 
Não gosto da Mariza 
Gosto de andar 
Não gosto de correr 
Gosto de silêncio 
Não gosto de confusão 
Gosto dos meus amigos 
Não gosto quando não são
 Gosto de gostar 
Não gosto quando não gosto 
Gosto de ti 
Não gosto de ti...

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Um outro azul



Blue, blue, my world is blue; 
Blue is my world now 
I'm without you; 
Gray, gray, my life is gray; 
Cold is my heart since you went away. 
 Red, red, my eyes are red 
Crying for you alone in my bed 
Green, green, my jealous heart 
I doubted you and now we're apart 
 When we met how the bright sun shone 
Then love died, now the rainbow is gone 
 Black, black, the nights I've known 
Longing for you so lost and alone 
 Blue, blue, my world is blue; 
Blue is my world now I'm without you.


Words & Music by Pierre Cour & Andre Popp
English lyric by Brian Blackburn
Recorded by Paul Mauriat, 1968

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Prá te fazer feliz




Você não sabe quanta coisa eu faria 
Além do que já fiz 
Você não sabe até onde eu chegaria 
Pra te fazer feliz 

 (...) 

 E ainda que a realidade me limite 
A fantasia dos meus sonhos me permite 
Que eu faça mais do que as loucuras 
Que já fiz pra te fazer feliz 

 (...) 

(c) Maria Bethânia

domingo, fevereiro 04, 2007

Achados e perdidos


Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento.



(c) Ana Vidigal 

Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, 
só sei pintando ou pronunciando sílabas cegas de sentido. 
Escrevo-te em desordem, bem sei. 
Mas é como vivo. 
Eu só trabalho com achados e perdidos. 

(Clarisse Lispector)

sábado, fevereiro 03, 2007

Juro-te


Não acabarão com o amor, 
 nem as rusgas, nem a distância. 
 Está provado, pensado verificado. 
 Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos
 e faço o juramento: Amo firme fiel e verdadeiramente. 

 (MAIAKOVSKY)

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Cartão Postal

(Paraty)
Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
(Ilhabela)
Fala que me ama
Só que é da boca prá fora...
(Maresias)
Ou você me engana
Ou não está madura
(Angra dos Reis)
Onde está você agora?
(Caetano Veloso , "sozinho")

domingo, janeiro 28, 2007

Vazio


No ponto onde o silêncio e a solidão 
Se cruzam com a noite e com o frio, 
Esperei como quem espera em vão, 
Tão nítido e preciso era o vazio. 

 (Sofia de Mello Breyner)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Que mais quero?




Não sei se é amor que tens, 
ou amor que finges, 
O que me dás. 
Dás-mo. 
Tanto me basta. 

(Fernando Pessoa)

terça-feira, janeiro 23, 2007

Mas não imune à paixão




Meu amor... Estamos quase em Fevereiro, as amendoeiras não tarda nada estão em flor, vem comigo ao Algarve! Ficamos naquela pousada que tu gostas, lá prós lados da carrapateira, apanhamos o primeiro sol do ano na Praia do Amado, e ao fim do dia (ainda te lembras?), dois quilos de percebes em Vila do Bispo! Depois, encho-te de beijinhos e don rodrigos fresquinhos, o que me dizes? Não te esqueças dos teus cds, ou levas com o meu Keith Jarret o caminho todo. Prometo que dormes até tarde e não faço barulho de manhã, não tiro fotografias e não leio o jornal, fico contigo em silêncio e espero. Por ti, espero.
























Tudo aconteceu quando o Algarve era reinado por Ibne Almundim, poderoso entre os poderosos reis mouros. Mas não imune à paixão. Um dia, num grupo de prisioneiros de batalha, ele viu-a pela primeira vez Gilda, a princesa loura de olhos azuis, a Bela do Norte que desposou e libertou. E, todavia, ela definhava um pouco mais todos os dias, com saudades da neve que deixara para trás. Ibne Almundim percebeu que acabaria por perder Gilda e plantou no reino centenas de amendoeiras, que, na Primavera, rebentavam em flores brancas que substituíam a neve das terras nórdicas. E viveram felizes para sempre.

Pentimento


À medida que o tempo passa, a tinta velha numa tela muitas vezes torna-se transparente. Quando isso acontece, é possível ver, em algumas pinturas, as linhas originais: através de um vestido de mulher surge uma árvore, uma criança dá lugar a um cão e um grande barco já não está em mar aberto. A isso chama-se “Pentimento”, porque o pintor se arrependeu, mudou de ideia. Talvez pudesse dizer-se que a antiga concepção, substituída por uma imagem ulterior, é uma forma de ver, e ver de novo, mais tarde.


(Lilian Hellman)

domingo, janeiro 21, 2007

Je ne parlerai pas

Je ne parlerai pas,je ne penserai rien.
Mais un amour immense
entrera dans mon âme.

(Rimbaud in "Sensation" , 1870)

sábado, janeiro 20, 2007

Just the way you are

Don't go changing,
to try and please me
You never let me down before
Don't imagine you're too familiar
And I don't see you anymore
I wouldn't leave you in times of trouble
We never could have come this far
I took the good times, I'll take the bad times
I'll take you just the way you are


I need to know that you will always be
The same old someone that I knew
What will it take till you believe in me
The way that I believe in you
I said I love you and that's forever
And this I promise from the heart
I could not love you any better
I love you just the way you are.

(Billy Joel)

sexta-feira, janeiro 19, 2007

A palavra é uma asa do silêncio


Saberás que não te amo e que te amo

pois que de dois modos é a vida,

a palavra é uma asa do silêncio,

o fogo tem a sua metade de frio

Eu amo-te para começar a amar-te,

para recomeçar o infinito

e não deixar de amar-te nunca:

por isso é que ainda não te amo.

Amo-te e não amo como se tivesse

nas minhas mãos a chave da fortuna

e um incerto destino infortunado.

Este amor tem duas vidas para amar-te.

Por isso amo-te quando não te amo

e por isso amo-te quando te amo.

(Pablo Neruda)

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Curiosity...

Curiosity kills the cat...

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Eros_1

Olha para mim e me ama.
Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.


Foto (c) Elena Vasilieva

Eros_2

O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor acabou. Mas às vezes em seu lugar vem o belo ódio dos que se amaram e se entredevoraram.

Eros_3

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.


Foto (c) Anjel Burbano

Eros_4

Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si. No amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio de instantes.
(Clarisse Lispector, "EROS")

Fédon


Tudo quanto vive provém daquilo que morreu
(Platão)
Foto (c) Michael McCarthy

terça-feira, janeiro 16, 2007

Tks darling...


Quero agradecer-te imensamente, por tudo o que me deste.

Quero agradecer, por teres-me feito compreender o quanto (ou nada) significo para ti.

Quero agradecer, por teres-me feito (finalmente) compreender o papel que me reservaste na tua vida.

Quero, por fim, agradecer, por o teres feito de forma tão clara que não me deixa margem para dúvidas.

É verdade. Alimentei essa dúvida a partir do momento em que deixei de alimentar a esperança. Vivo disso, de alimentar sonhos.

Os sonhos, os meus e os teus, perderam-se num passado que já não volta e que, de tão distante, parece mesmo que nunca existiu para além do próprio sonho.

A esperança foi algo que ficou desse sonho, e me fez morrer um pouco a cada dia enquanto dava lugar à dúvida, que foi o que restou de nós.

Quem és tu afinal? De que matéria és feita? O que tens no lugar do coração?

Mas a maior de todas as dúvidas é minha, e só minha: onde está a mulher que me amou, onde está a mulher que eu amei?


Por favor, vai de uma vez por todas, peço-te como um último desejo. Não voltes para te abrigar, não voltes por conveniência, simplesmente não voltes.

Se precisares de mim, e sei que vais, pensa no meu pedido e num gesto de ternura, se fores capaz, não me procures e pensa em mim de uma forma boa.

Tu foste um equívoco, e eu equivoquei-me. Não faz mal, porque aprendi muito contigo.

Também por isso te agradeço, por tudo o que me ensinaste.

Um dia isso tinha que ter fim, e mais do que nunca agradeço por isso.

Respira de alívio, como eu respiro. Sinto-me livre e calma, por ter saído da pior das solidões, que foi ter-te ao meu lado.

Acabaram-se as chegadas e as partidas, e qualquer coisa de nada entre uma e outra.

Estou livre e calma. Esgotou-se o vazio em mim.

Deixa-me assim…

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Eu quero...

Tudo é meio complicado,

mas eu quero que você me entenda.

O que acontece aqui dentro já foi bom,

agora não é mais.

Numa tentativa de mudar as coisas,

vou beijar você, um beijo é bom mas eu quero mais!

O que eu quero é passear de mãos dadas no shopping.

Tomar um sorvete e assistir um filme da Júlia Roberts.

O que eu quero é acordar olhando pra você.

Passar o dia todo juntos vendo nada na TV.

Foto (c) Tanya Chalkin - Lyrics (c) VODKA FROG

...ser dois

Eu quero ser dois,
eu quero ser dois,
eu quero ser dois,
eu quero ser dois, com você!
Se você está dançando até parece
que a música foi feita pra você.
Se você dá um sorriso
eu percebo como é bom te ver.
Numa tentativa de mudar as coisas,
vou beijar você,
um beijo é bom mas eu quero mais!


Foto (c) Steven Underhill - Lyrics (c) VODKA FROG

com você!


Eu quero ser dois,
eu quero ser dois,
eu quero ser dois,

eu quero ser dois com você!

Eu quero ser dois,
eu quero ser dois,
eu quero ser dois,

Só quero ser dois,

com você,
com você,
com você,
com você!

(VODKA FROG - "Dois")

Quem és tu?

Quem és tu
Que voltas sempre
Quando já não te espero
Entras devagar no meu sono
Despertas o meu corpo inerte
Com as tuas mãos geladas
Das madrugadas de Janeiro
Quem és tu
Que invades os meus sentidos
Submersos na memória do teu corpo
Que te entregas sem êxtase
Cansada, rendida, sobrevivente
De outras madrugadas frias
Sem gestos de magia
Quem és tu
Que não te reconheço...?

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Secretamente

Foto (c) Lindsay Simpson

Seus olhos estão perigosamente dentro de mim

aqui fizeram morada e estão como Deus em toda parte

se interpondo entre a paisagem mais próxima

entre a fresta de luz e a imagem tangenciando meu olhar

que não sabe olhar puro

que se trai a cada segundo.

Seus olhos estão perigosamente pousados sobre mim

como borboleta em flor cobrindo minha pele

em ternuras suaves como seda a farfalhar sobre os poros e os pelos.

Luzes que incendeiam em sublime música meu corpo aceso em sede

Sombras sobre minha noite embalam meu sono devassando meus sonhos

onde secretamente me assombram estando fora e sendo dentro

espelhos de amor intenso e imenso.

Nossos olhos estão perigosamente em comunhão

a despeito da separaçãoque a vida nos impõe.

E nossas vidas sob risco entre sermos felizes ou tristes

e nossos destinos por um triz entre sucessos e desatinos.

Secretamente espreitamos-nos como caminhos

à beira de atraentes abismos.

(Virgínia Schell)

Preferi o vento


Parece divertido ficar aqui lhe esperando,
Você que não chega na hora marcada
E não há nada mais triste,
Inconfundivelmente chato,
Do que amar sem ser amada.
Por fim, eu lhe traí.
Preferi o vento
A este sentimento
Que menti
Ser sincero no momento...
(Marcela Bueno)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Palavras Inúteis



Se há palavras inúteis, são as que te dediquei a ti. Ridículas, porventura, como diria o poeta, mas sem dúvida inúteis. Como foi em vão o tempo que nos separou, e o encontro adiado, que o será para sempre, como se da nossa natureza se tratasse. Pensei que te procurava nos amores que tive, mas naquela tarde soube que nunca estarias presente em qualquer forma de amor, que não fosse a tua obcecada mania de mim, o teu medo de mim, a tua incapacidade de ser, simplesmente. A tua casa, minúscula, sem alma, como tu. Os teus silêncios, o teu olhar, sem brilho e sem lugar... Porque me tocas e esperas tanto? Queres a salvação que não te posso dar? É tarde minha querida, muito tarde para nós. Tudo o que te quis um dia encontrei noutras mãos, noutros lábios, noutro sono. Sobrou o meu cansaço nos teus braços, a tua mão no meu cabelo, a tua boca na minha. Eram braços e eram mãos e era tua a boca, mas não estavas lá. Algum dia estiveste?

quarta-feira, janeiro 10, 2007

O fino traço da tua presença

Foto (c) Carlos Ramos
Como se desenhados
Tu
E o de dentro da casa.
Entro
Como se entrasse
No papel adentro
E sem ser vista
Rasgo
Alguns véus e fibras
Sem ser amada
Pertenço.
Que sobreviva
O fino traço da tua presença.
Aroma. Altura.
E lacerada eu mesma.
Que jamais se perceba
Umas gotas de sangue na gravura.

(Hilda Hilst)

terça-feira, janeiro 09, 2007

O halo das coisas



Photo (c) Francisco Neto


O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente? Minha experiência vem de que eu já consegui pintar o halo das coisas. O halo é mais importante que as coisas e as palavras. O halo é vertiginoso. Finco a palavra no vazio descampado: é uma palavra como fino bloco monolítico que projeta sombra. E é trombeta que anuncia.

(Clarisse Lispector)

domingo, janeiro 07, 2007

Queixa


Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa
Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água
Ondas, desejos de vingança
Dessa desnatureza
Bateu forte sem esperança
Contra a tua dureza
Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria
Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa

(Caetano Veloso)

Falar de mim

Foto (c) Filipa César
Queres que fale de mim?
Eu sei, há tanto tempo que não sabes nada...
Queres que te conte como é a tua ausência?
Gostavas de saber como sou depois de ti?
Digo-te uma coisa, só uma: sobrevivi-te.
Não é esse o destino dos amantes,
Não é esse o nosso dom secreto?
Devias aprender comigo, o sorriso dos lábios
Os mesmos que ainda sentem o teu gosto
E que escancaram enquanto os olhos não disfarçam
O limbo de estar aqui
Queres que fale de mim?
Olha-me, antes, e em silêncio escuta-me
Sou eu ainda, enquanto tu já não és...

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Desperta-me De Noite

Photo (c) Andrea Franke

Desperta-me de noite o teu desejo
na vaga dos teus dedos com que vergas
o sono em que me deito
É rede a tua língua em sua teia
é vício as palavras com que falas
A trégua a entrega o disfarce
E lembras os meus ombros docemente
na dobra do lençol que desfazes
Desperta-me de noite com o teu corpo
tiras-me do sono onde resvalo
E eu pouco a pouco vou repelindo a noite
e tu dentro de mim vais descobrindo vales.

(Maria Tereza Horta)

Ternura



Foto (c) Luisa Ferreira


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[extático da aurora.


Vinicius de Moraes in “Poesia Completa e Prosa”

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Só o audaz abraço

Safo by Mengin
Não me mandes para o canto
Quando digo a palavra nuca chupo-te suavemente até afundar o dente aqui?
Acaso estou te tocando?
Quando digo bico do peito a mão roça as dilatadas rosas dos peitos teus?
Toco-te acaso?
Toca, língua, acaso o canto de meus lábios e aprisiona na vasta cavidade do corpo que deseja ser tocado e cingido por tua língua quando nomeia por minha boca a palavra língua, acaso?
Não me mandes para o canto
Não faças de mim a testemunha que se olha te tocando com palavras
É a mão nomeada não o nome que deseja aprisionar tuas nádegas
– Fala-me– Como será?– O quê?– Tua voz
Fogo oculto na madeira do fogo que se expande?
É assim que será? O corpo da tua voz no instante em que não me mandes para o canto
Flui mel das romãs
Não quero tocar um fantasma nem quero a fantasia cortês do trovador à sua dama
É a ti, minha amada áspero corpo da amiga que desejo
Gesto de mútua apropriação, instante onde não se sabe os limites do tu, do eu
O nome e o nomeado em tersa conjunção que sabe não durará
E sabe que é mais eterno que o gume de um diamante
Alegre relâmpago de garra e de mordedura animal
O mais belo de todos os instintos impera aqui
Sua voz não tem tradução
Verbal moeda de intercâmbio
Não
Só o audaz abraço, minha amiga,responde aqui

(Diana Belessi)